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Yanomami cobram promessas do Presidente da República

Yanomami exigem da FUNASA qualidade na assistência à saúde

Secretária de Educação de Roraima visita a TI Yanomami


Yanomami cobram promessas do Presidente da República  

Um grupo de índios Yanomami, da Aldeia Watoriki, enviou carta ao Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, cobrando as promessas feitas durante a campanha eleitoral. Os índios recordam que, como candidato, Lula afirmou que ajudaria os povos indígenas, entre eles, os Yanomami. Hoje, no entanto, os índios estão ameaçados com a possibilidade de abertura de suas terras à exploração das empresas de mineração.

Quase 60% da Terra Indígena Yanomami já está coberta por centenas de requerimentos e títulos de mineração. “Quando as máquinas grandes trabalharem na nossa floresta elas irão destruí-la. Não queremos que sujem nossas águas, nós não queremos que destruam nossa floresta, nós não queremos morrer com as doenças de vocês, brancos”, diz a carta, expressando a contrariedade da comunidade indígena com uma eventual aprovação dos projetos que regulamentam a exploração mineral em áreas já demarcadas, como é o caso da Yanomami. Eles reivindicam que seja assegurada a garantia de respeito às suas terras de ocupação tradicional, prevista na Constituição Federal.

Os Yanomami reforçam sua cobrança lembrando ao Presidente da República que ele compareceu à 1ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, quando a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o governo pretende “proteger a floresta”. Diante da contradição entre os discursos e as iniciativas aprovadas pelo Governo atual, os Yanomami avisam que estão dispostos a levar suas inquietações à opinião pública e aos foros nacionais e internacionais. Abaixo, a íntegra da carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

Watoriki, 10 de julho de 2004

Senhor Presidente Luis Inácio Lula da Silva

Nós Yanomami escrevemos a nossa carta. Nós todos, povos indígenas estamos muito tristes porque vocês fizeram reunião sobre mineração, nós não queremos mineração na nossa floresta; 520 mineradoras tencionam trabalhar por isso nós ficamos zangados. Quando as máquinas grandes trabalharem na nossa floresta elas irão destruir a floresta. Nós não queremos que sujem nossas águas, nós não queremos que destruam nossa floresta, nós não queremos morrer com as doenças de vocês, brancos. Por isso, todos vocês que tencionam nos ajudar devem ouvir a nossa palavra. Por que você mudou de idéia depois de se tornar presidente? Antes quando você era candidato a presidência você tencionava nos ajudar - por isso você tem que se lembrar de todos nós, povos indígenas. Você também tencionava ajudar outros povos do Brasil durante a sua campanha você também disse isso para eles.

“Quando eu me tornar presidente eu vou melhorar o Brasil, eu vou ajudar os povos indígenas, os Yanomami”. Assim você disse quando fez discurso. Nós Yanomami queremos que você se lembre novamente de nós. Você deve continuar nos ajudando porque você se esqueceu de nós povos da terra. Esta carta nós não estamos escrevendo à toa, porque na Constituição está escrito GARANTIA. Assim diz a lei: “a terra pertence aos Yanomami que vivem nela; é nela que eles devem viver com saúde”. Assim diz a lei por isso vocês autoridades devem ser inteligentes. Vocês não devem prometer à toa!

Os minérios que estão debaixo da terra pertencem somente a nós da União, assim vocês devem pensar. A terra, os minérios, as águas, florestas, o ar, os animais, os peixes, os alimentos tudo o mais que nos faz viver com saúde é devido a grandeza da terra, vocês não devem destruí-la, a floresta está bem como é. Nós não queremos estragar a terra, tanto vocês brancos como nós Yanomami devemos proteger a floresta.

1a Conferência Nacional do Meio Ambiente você também participou. Você prestou atenção na fala da Ministra Marina Silva. Nós povos indígenas também prestamos atenção na fala dela. “Nós queremos proteger a floresta”. Assim vocês autoridades disseram. Vocês disseram assim mas vocês prometeram à toa? Para nós sua palavra é importante mas por que vocês a deixaram de lado? Nós Yanomami protetores da floresta ainda mantemos forte sua palavra, por isso nós queremos que você que é presidente, proíba a mineração.

Nós Yanomami também temos autoridade, por isso você deve ouvir as nossas palavras, nós estamos explicando a verdade para você. Agora que nós Yanomami já sabemos quando vocês autoridades falam nós prestamos atenção e ficamos atentos. Se vocês autoridades não nos ouvirem, para outras autoridades e governos internacionais nós vamos enviar as nossas palavras e, assim, outras autoridades vão tomar conhecimento. Assim nós não queremos fazer mas vocês autoridades estão nos provocando por isso nós escrevemos esta carta. Para nós, povos da terra, você deve mandar uma resposta. Nós estamos esperando a sua palavra. Minhas palavras se acabaram.

Um grande abraço do povo do Watoriki.

Atenciosamente,

Assinam:

Davi Kopenawa Yanomami, Dário Vitório Xiriana, Anselmo Xiropino Yanomami, Raimundo Yanomami, Morzaniel Eramari Yanomami, Eudes Koyvino Yanomami, Pedrinho Matorino Yanomami, Daniel Mariri Yanomami, Chica Prororiama Yanomami, Dinar Tekawari Guasilla, Rogério Waimona Yanomami, Gerôncio Yanomami, Valmir Weyaore Yanomami, Antônio Xapirinama Yanomami, Justino Wari Yanomami, Pedro Mioti Yanomami, Carlos Yanomami, Jair Yanomami, Jonas Yanomami, Islique Yanomami, Bocomi Yanomami, Luis Yanomami, Genésio Yanomami, Paulo Yarixiri Yanomami, Lourival Yanomami, Anita Yanomami, Suzana Yanomami, Cleonice Yanomami, Juana Yanomami, Josani Yanomami, Zita Yanomami, Ehuana Yanomami, Liliane Yanomami, Rita Yanomami, Fátima Yanomami, Oneron Yanomami, Enose Ineterima Yanomami, Joaozinho Yanomami, Aristeu Yanomami, Neto Yanomami, Teresa Yanomami, Lucio Yanomami, Luciana Yanomami, Alice Yanomami, Nilson Yanomami, Taina Yanomami, Leandro Yanomami, Tuira Yanomami, Crista Yanomami, Amarildo Yanomami, Fernando Yanomami, Nayara Yanomami, Keneiytotirin Yanomami, Delfina Yanomami, Guiomar Yanomami, Edimur Yanomami, Ricarado Yanomami, José Yanomami, Denise Yanomami, Junior Yanomami, Jane Yanomami, Esmeraldino Yanomami, Daucirene Yanomami, Janis Yanomami, Porfirio Yanomami, Roberto Yanomami, Lucas Yanomami, Felicia Yanomami, Rosarina Yanomami, Rosina Yanomami, Catarina Yanomami, Luana Yanomami, Margarida Yanomami, Maria Acosta Yanomami, Marta Yanomami, Eda Yanomami, Yasuyo Yanomami, Suhuma Yanomami, Mocinha Yanomami, Helena Yanomami, Madalena Yanomami, Marquinho Yanomami, Abilio Yanomami, Salomé Yanomami, Aroudo Yanomami, Joseca Mokahesi Yanomami, Sebastião Saruwari Yanomami, Toinho Xikiri Yanomami, Alindo Yanomami

Obs: A carta foi escrita em Yanomae (língua Yanomami oriental) e traduzida para o português pelos professores yanomami Dário Vitório Yanomami e Anselmo Yanomami.


Yanomami exigem da FUNASA qualidade na assistência à saúde   

Os Yanomami da aldeia Watoriki enviaram carta à direção da Fundação Nacional de Saúde, na qual revelam a sua decepção com as recentes mudanças no serviço de assistência médica à população indígena. Desde o dia 2 de julho último, a Funasa re-assumiu a responsabilidade direta pelo atendimento aos Yanomami, que desde 1999 era prestado pela organização não-governamental Urihi-Saúde Yanomami.

Segundo os assinantes da carta, a atuação direta da Funasa na sua área de 1994 a meados de 1999 não foi boa: “vocês (Funasa) não trabalharam direito”. E, com a retomada, em meados de 2004, a situação parece começar a se repetir. “Vocês (Funasa) devem contratar funcionários para cuidar da saúde dos Yanomami”, diz a carta, acrescentando que o órgão deve fornecer aos contratados alimentação, enviar remédios de qualidade e garantir aviões seguros para o transporte de pessoal. Lembram o acidente aéreo envolvendo três servidores da Funasa no último dia 5 de julho na região de Ericó, com um Cesna-182 terceirizado pela empresa Anauá Táxi Aéreo que venceu a licitação para transportes no Distrito Sanitário Yanomami.

De acordo com os Yanomami, os funcionários da Funasa têm medo de viajar em aeronaves velhas e acabam não indo trabalhar na floresta, onde estão as aldeias. “Sem funcionário para cuidar da nossa saúde, nós Yanomami morreremos”, alertam os índios.

Na mesma carta, os Yanomami criticam os funcionários que só querem ficar nos postos de saúde esperando os doentes aparecerem e se recusam a andar até as aldeias para os necessários atendimentos e monitoramento sanitário. Os Yanomami também afirmam que estão prontos a colaborar com as equipes de saúde, fazendo o transporte dos remédios e gêneros alimentícios. Apresentamos abaixo a íntegra da carta dos índios à direção da Funasa:


Watoriki 10 de julho de 2004

Senhor Presidente da Funasa

Nós Yanomami fizemos esta carta. Nós estamos muito tristes porque vocês acabaram com o que estava bom. No ano de 1994 vocês da FUNASA começaram a trabalhar na terra yanomami. Quando vocês trabalharam vocês não trabalharam direito e agora no ano de 2004 vocês da FUNASA voltaram a trabalhar. E vocês estão fazendo tudo igual novamente. Já no começo vocês não estão fazendo certo. Por isso todos nós Yanomami estamos muito tristes. Vocês devem contratar funcionários para cuidar da saúde dos Yanomami. Quando vocês os mandarem para a floresta vocês devem ajudá-los, vocês devem mandar alimentação para eles. Vocês também devem mandar remédios novos.

Vocês devem prestar atenção se os aviões são novos. Se os aviões forem velhos os funcionários terão medo de vir trabalhar (na floresta). Sem funcionário para cuidar da nossa saúde, nós Yanomami morreremos. Vocês da FUNASA que disseram trabalhar bem, vocês devem continuar o bom trabalho. Vocês devem mandar os funcionários irem para as casas dos Yanomami. Se vocês não fizerem assim nós vamos morrer. Não queiram ficar só no posto!

Vocês que são autoridades devem mandá-los mesmo. Se vocês não manda-los, nós yanomami não vamos permitir que eles fiquem à toa no posto. Se eles andarem até outras aldeias, assim nós ficaremos contentes. Nós Yanomami ajudaremos a carregar os remédios e a alimentação. Fazendo assim funcionará bem. Porque nós não queremos que as doenças voltem a crescer entre nós Yanomami. Quando nós explicamos para vocês, vocês autoridades vão saber quando seus funcionários não estão trabalhando direito, porque vocês autoridades estão longe.

Agora vocês autoridades estão ouvindo a nós Yanomami. Agora que vocês ouviram nossas palavras exigindo isso, vocês devem prestar atenção na Coordenação de Roraima. O começo do trabalho ainda não está bom. Nós vamos esperar um pouco. Se vocês trabalharem bem, só assim nós ficaremos satisfeitos.

Aqui acaba nossa palavra.
Um grande abraço do povo do Watoriki.

Atenciosamente,

Assinam:

Davi Kopenawa Yanomami, Dário Vitório Xiriana, Anselmo Xiropino Yanomami, Raimundo Yanomami, Morzaniel Iramari Yanomami, Eudes Koyorino Yanomami, Pedrinho Watorino Yanomami, Daniel Mariri Yanomami,Chica Prororiomami, Rogerio Waymona Yanomami, Gerôncio Yanomami, Dinarte Kawariwais Yanomami, Valmir Weyaore Yanomami, Antonio Xapirinama Yanomami, Justino Warii Yanomami, Carlos Yanomami,Jair Yanomami, Pedro Miotima Yanomami, Islique Yanomami, Bocomi Yanomami, Luis Yanomami, Genécio Yanomami, Paulo Yarixiri Yanomami, Lourival Yanomami, Anita Yanomami, Suzana Yanomami, Cleonice Yanomami, Suana Yanomami, Josane Yanomami, Zita Yanomami, Ehuano Yanomami, Liliane Yanomami, Rita Yanomami, Fatima Yanomami, Oneron Yanomami, Tenose Iheterima Yanomami, Joãozinho Yanomami, Teresa Yanomami, Aristeu Yanomami, Iveto Yanomami, Lucio Yanomami, Luciana Yanomami, Alice Yanomami, Nilson Yanomami, Taina Yanomami, eandro Yanomami, Tuira Yanomami , Cristina Yanomami, Amarildo Yanomami, Fernando Yanomami, Nayara Yanomami, Keneli Totihirima Yanomami, Delfina Yanomami, Guiomar Yanomami, Edimar Yanomami, Ricardo Yanomami, José Yanomami, Jane Yanomami, Denise Yanomami, Júnior Yanomami, Esmeraldo Hwaxiyoma Yanomami, Daucirene Yanomami, James Yanomami, Porfirio Yanomami, Lucas Yanomami, Felicia Yanomami, Rosalina Yanomami, Rosina Yanomami, Catarina Yanomami, Luana Yanomami, Margarida Yanomami, Maria Augusta Yanomami, Marta Yanomami, Eda Yanomami, Yasuyo Yanomami, Suhuma Yanomami, Mocinha Yanomami, Helena Yanomami, Madalena Yanomami, Marquinho Yanomami, Abilio Yanomami, Salomé Yanomami, Jonas Yanomami, Aroudo Yanomami, Joseca Mokahesi Yanomami, Sebastião Kanari Yanomami, Toinho Xikiri Yanomami, Auida Yanomami.

Obs: A carta foi escrita em Yanomae (língua Yanomami oriental) e traduzida para o português pelos professores yanomami Dário Vitório Yanomami e Anselmo Yanomami.


Secretária de Educação de Roraima visita a TI Yanomami  

A secretária de Educação de Roraima, Lenir Veras, visitou, dia 12 último, a aldeia de Watoriki, onde conheceu a escola da comunidade e se familiarizou in loco com o trabalho do programa de educação intercultural (PEI) desenvolvido pela Comissão Pró-Yanomami (CCPY). Acompanhada pelo coordenador do PEI, Marcos Oliveira, pelo coordenador do Projeto Agroflorestal da CCPY, Ednelson Macuxi, e pelo Administrador Regional da Funai, Benedito Rangel de Morais, a secretária reafirmou seu compromisso de realizar concurso público específico para a contratação de professores yanomami até o final do ano.

A secretária anunciou também que foi aprovada a verba para as bolsas de estudos destinadas aos professores yanomami até que estes sejam efetivamente contratados pelo Governo estadual. A primeira liberação dos recursos será feita no início do mês de agosto, quando os professores estarão em Boa Vista para participar do IV Curso de Formação para o Magistério Yanomami organizado pela CCPY.

Lenir Veras deixou a aldeia muito bem impressionada com a escola yanomami, o trabalho dos professores e o rendimento dos alunos. A secretária observou os diários de classe, os cadernos dos alunos. Os professores Dário e Anselmo Yanomami explicaram como preparam e ministram as aulas, além de como são organizadas as turmas e seu processo de avaliação. Na despedida da aldeia, a secretária prometeu dar seu total apoio para garantir a certificação de professores e alunos yanomami.


Boletim Pró-Yanomami Nº 52 - Fechamento: 23/07/2004
Coordenação Editorial: Alcida Rita Ramos, Bruce Albert, Jô Cardoso de Oliveira
Redação: Rosane A. Garcia
Distribuição e Secretaria: Andréia Laraia Ciarlini


 

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