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Yanomami avaliam primeiro mês de atuação das equipes da Funasa

Senador Romero Jucá indica novo coordenador da Funasa em Roraima

CCPY promove quarto curso de formação de professores yanomami
Começa nova fase de projeto de reflorestamento em Homoxi (RR)


Yanomami avaliam primeiro mês de atuação das equipes da Funasa  

Líderes, professores e microscopistas yanomami da região do Parawau reuniram-se no fim de julho para uma primeira avaliação do atendimento prestado na sua região pelas equipes da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) que, a partir de 2 de julho, reassumiu a responsabilidade pelo atendimento na Terra Indígena Yanomami. Comparando a qualidade do atendimento da Funasa à da ONG Urihi-Saúde Yanomami que os atendia desde 1999 com resultados muito positivos, os habitantes de Parawau mostraram grande paciência ao aconselharem os servidores da Funasa a serem mais dinâmicos em campo do que demonstraram ser no primeiro mês de atuação. Recomendaram que fiquem menos no Posto, esperando os doentes aparecerem, e passem a percorrer ativamente as aldeias para identificarem os pacientes e administrarem os tratamentos adequados, evitando que a malária, as gripes e outras doenças voltem a provocar mortes nas aldeias.

Chamamos a atenção para o modo maduro como os Yanomami expressam à Funasa a expectativa de que o modelo de atendimento à saúde instaurado pela Urihi deve ser continuado. Ao contrário da sua experiência anterior com a Funasa, os Yanomami estão agora em posição de avaliar a qualidade do atendimento à saúde.

Na reunião, redigiram uma carta à Funasa na qual advertem: “Vocês da Funasa não trabalham como trabalhavam antes os da Urihi, mas nós vamos tentar corrigir isso”. Em outro trecho, eles evocam as experiências anteriores: “Nós não queremos que nossos filhos morram, elas já morreram demais no passado... Não sejam preguiçosos”. Apresentamos abaixo a íntegra da carta dos Yanomami à Fundação Nacional de Saúde:

Parawau, Posto Yano, 27 de julho de 2004.

A vocês da Funasa.

Digam o que vocês pensam sobre a nossa atual situação, nós queremos esclarecer isso. Não há carne de caça aqui, mas nós fizemos o que chamam de reunião, é uma tentativa de acertarmos o que está acontecendo. Como nós pensamos sobre os brancos que estão trabalhando com a nossa saúde agora? Nós não pensamos à toa, porém não temos ainda uma opinião definitiva.

Vocês da Funasa não trabalham como trabalhavam antes os da Urihi, mas nós vamos tentar corrigir isso. Os brancos da Urihi trabalhavam bem. Se estávamos com saúde aqui, eles seguiam para outra casa onde houvesse doenças, sem pressa de retornar para o posto. Era assim que eles faziam, trabalharam muito em outros lugares. Depois de curarem os outros Yanomami, somente após isso, eles retornavam para casa. Eles também detectavam doenças lá longe, entre os Maxapipiwei teri pë, era assim que eles faziam, os da Urihi.

Vocês da Funasa não fazem da mesma forma que a Urihi fazia no passado, mas nós vamos insistir para que melhorem. Se hostilizarmos os da Funasa à toa, não virão outros brancos aqui para nos curar. Por isso fizemos esta reunião, para tentarmos conscientizá-los.

Se não dissermos “Ajudem-nos, vocês da Funasa”, vocês não nos ajudarão, vocês não nos responderão. Talvez vocês digam “não, os Yanomami não pensam direito”. Nós dizemos: “Nós não queremos que nossos filhos morram, eles já morreram demais no passado”. “Não sejam preguiçosos”, “vá até minha casa”. Quando falamos desta forma, vocês devem ir. Vocês da Funasa que entraram na nossa terra, não sejam preguiçosos.

Nós estamos vigiando, estamos atentos, de olho na administração de remédios. Nós estamos observando diretamente se a pneumonia acaba, se nos curam bem. Agora, se o pessoal da Funasa ficar bravo à toa, afugentar crianças e também reclamar, aí vamos ter vontade de nos livrar deles. Se não nos curarem, não será nada bom.

A Urihi trabalhava assim: eles iam para o Koherepi, para o Uxiximapiu, para o Maxapipi, para o Raharapi, para o Etewexipi. Era assim que a Urihi atuava, por isso os Yanomami ficavam realmente muito felizes. Mas a mulher da Funasa nos mandou para trabalhar para eles. As crianças estavam doentes, mas a mulher da Funasa nos fazia trabalhar. “Come peixe!”. “Depois de comer, você deve curar as crianças”, nós lhe dissemos. Se não curarem nossos filhos, não queremos trabalhar com vocês e vamos querer dizer que “a Funasa não é boa”. Isso vai acontecer se nossos filhos morrerem de pneumonia ou de outras doenças. Aí, não queremos mais ter vocês da Funasa por aqui. “Vamos chamar outros brancos realmente bons”, é isso que vamos dizer, se isso acontecer.

Nós também dissemos aos da Funasa que foram à nossa casa: “Vocês devem trabalhar como faziam os da Urihi até recentemente”. Mas eles nos chamaram de preguiçosos quando não fomos pescar para eles, após dizerem “estou com fome”.

Outro assunto. Há microscopistas entre nós, Yanomami, mas se não tiverem o que fazer, a situação vai piorar, por isso queremos voltar a atuar com a Funasa. As coisas ficarão boas quando voltarmos a trabalhar como na época da Urihi. Ainda lemos lâminas, ainda sabemos ver a malária. Nós queremos continuar a trabalhar, mas não nos dão o que fazer. Vocês também estão inativos, por isso estamos tristes.

Os Yanomami que discutiram esse assunto foram:
Geraldo Wanapiu teri, conselheiro local;Edu Xakipi teri; Ivo Xakipi teri; Vitor Koherepi teri; Atapae Parawau teri; Topo Parawau teri; Cassio Etewexipi teri; Carlos Etewexipi teri; Aroldo Etewexipi teri;Robi Etewexipi teri; Adão Uxiximapiu teri.

Os microscopistas e professores Yanomami que estiveram presentes na reunião foram:
Hugo Koherepi teri, microscopista; Zeca Parawau teri, microscopista; Edson Uxiximapiu teri, microscopista;Esmeraldo Etewexipi teri, microscopista; Ivan Yoroana, Xotokomapiu teri; professor Rafael Wanar; , Wanapiu teri, professor;Apolo, Xotokomapiu teri, professor; Eberson Koimari, Raharapi teri, professor;

Outros Yanomami presentes:
Romeu Uxiximapiu teri; Hélio Wanapiu teri; Tanera Maraxipora teri; Biko Etewexipi teri

(Traduzida do Yanomami pelo professor Luis Fernando Pereira)


Senador Romero Jucá indica novo coordenador da Funasa em Roraima  

O médico Ramiro Teixeira, candidato derrotado a deputado estadual nas eleições de 2002, foi nomeado coordenador da Fundação Nacional de Saúde em Roraima. Ele foi indicado para o cargo pelo senador Romero Jucá, ex-governador de Roraima e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio no Governo Sarney, durante a tentativa (1988-89) do governo federal de retalhar o território yanomami em 19 áreas pequenas e descontínuas cercadas por corredores abertos à exploração, inclusive por garimpeiros. Jucá é também conhecido dos Yanomami por ser o autor do Projeto de Lei 1610/96 que regulamenta a mineração em terras indígenas.

Essa lei poderá afetar gravemente a integridade da Terra Indígena Yanomami, uma vez que dá prioridade aos requerimentos apresentados ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) antes da promulgação da Constituição de 1988 que, no caso yanomami, atingem cerca de 60 por cento da Terra Indígena. São requerimentos de pesquisa e lavra mineral feitos por companhias nacionais e multinacionais.

Ramiro Teixeira foi nomeado apesar de estar sob investigação do Ministério Público e do Tribunal Regional Eleitoral por abuso de poder econômico, político e de comunicação, ao lado do Senador Romero Jucá e outros políticos de Roraima, conforme denunciou a Folha de Boa Vista em 18 de dezembro de 2003 na matéria intitulada “TRE investiga mais treze ações por abuso de poder em Roraima” e em 10 de janeiro de 2004 com a reportagem “TRE julgará ação contra Ottomar”.

A nomeação do Dr Ramiro Teixeira trouxe uma nova preocupação para os líderes e professores yanomami, entre eles Davi Kopenawa. Reunidos em 21 de agosto último em Boa Vista para a abertura do quarto curso de formação de professores yanomami organizado pela Comissão Pró-Yanomami (CCPY), eles redigiram uma carta ao ministro da Saúde, Humberto Costa, na qual apelam para que seja cobrado do novo coordenador regional da Funasa uma atuação que não prejudique os Yanomami, os Macuxi e os demais povos indígenas de Roraima. Pedem ao ministro que desconsidere qualquer orientação do Senador Romero Jucá e lembram que, “há algum tempo ele [Jucá] enviou garimpeiros para nossas florestas. Depois de termos visto isso, ele ainda insiste em tentar mandar mineradoras, por isso não o queremos”. Os Yanomami não esquecem que as invasões garimpeiras que devastaram suas terras em 1987-1990 quase dizimaram seu povo e deixaram graves seqüelas epidemiológicas, ambientais e sociais em várias regiões da T.I Yanomami.

Os Yanomami pedem ainda ao Ministro Humberto Costa que aja rigor na administração dos recursos financeiros destinados à saúde indígena: “Vocês também não devem gastar indevidamente o dinheiro destinado para nossa saúde durante as eleições. Nós queremos boa assistência em saúde, queremos remédios, instrutores de assuntos de saúde, médicos, dentistas (...)”. Por fim, os Yanomami reivindicam a continuidade da formação e emprego de microscopistas e agentes de saúde Yanomami, processo que vinha sendo desenvolvido pela Urihi-Saúde Yanomami e que ainda não foi retomado pela Funasa. Apresentamos abaixo a íntegra da carta dos Yanomami ao ministro da saúde:


Boa Vista, 21 de Agosto de 2004.

Senhor Ministro da Saúde
Humberto Costa.

Nós Yanomami fizemos esta carta.
Nós estamos muito preocupados ainda pois parece que cresceu o número de pessoas na Funasa que não gostam de nós, Yanomami. Nossa preocupação não termina, pois os políticos não costumam nos ajudar. Por isso, vocês que são grandes lideranças, devem ordenar com firmeza o coordenador da Funasa para que ele realmente nos ajude e também aos Macuxi e aos outros índios brasileiros. Quando vocês fizerem isso, quando vocês nos ajudarem, somente assim será melhor.

Não façam apenas como Romero Jucá quer fazer. Há algum tempo ele já enviou garimpeiros para nossas florestas. Depois de termos visto isso, ele ainda insiste em tentar mandar mineradoras, por isso não o queremos.

Vocês também não devem gastar indevidamente o dinheiro destinado para nossa saúde durante as eleições. Nós queremos boa assistência em saúde, queremos remédios, instrutores de assuntos de saúde, médicos, dentistas e comida para eles. Assim que é realmente bom, quando todos nós estivermos vivendo com saúde. A Funasa tomou novamente o atendimento à saúde Yanomami mas ainda não trabalham como a Urihi trabalhou conosco. Vocês devem voltar a ajudar os microscopistas yanomami, nós ainda queremos formar microscopistas entre nós, pois pretendemos nos ajudar.

Sim, se vocês brancos não quiserem ler novamente nossas cartas, iguais a esta, respondam imediatamente para nós, mandem também sua carta. Acabaram-se nossas palavras.

Atenciosamente

Davi Kopenawa Yanomami; João Davi Maraxii Yanomami; Geraldo Yanomami; Maranhão Yanomami; Bruce Yanomami; Jacamim Yanomami; Marcão Yanomami; Dário Vitório Yanomami; Lourenço Yoina Yanomami; Anselmo Xiropino Yanomami; Enio Mayanawa Yanomami; José Arari Yanomami; Alfredo Himotono Yanomami; Antônio Tihiri Yanomami; Emílio Sisipino Yanomami; Marconi Kariona Yanomami; Marinaldo Xamari Yanomami;Rafael Wanari Yanomami;Nelson Hururi Yanomami; Raimundo Oiri Yanomami; Genivaldo Krepuna Yanomami; Ivan Yoroana Yanomami; Sidinei Nanari Yanomami; Amazonas Yanomami; Keni Karixa Yanomami; Apolo Xikimari Yanomami; Platão Arimari Yanomami; César Yoinari Yanomami; Alípio Warinawa Yanomami; Valdir Apurina Yanomami; Magno Haxio Yanomami; Tadeu Mateus Siã Kaxinawa; Ixã Kaxinawa

(Tradução do Yanomami por Dário Vitório Yanomami).


CCPY promove quarto curso de formação de professores
yanomami
  

No dia 16 de agosto último, a Comissão Pró-Yanomami (CCPY) deu início, em Boa Vista (RR), à quarta edição do seu curso de formação para o magistério com a presença de 24 professores yanomami das regiões do Demini, Toototobi, Parawau, Homoxi, Alto Catrimani, Paapiú e Kayanaú. Durante o curso, que irá até 30 de setembro próximo, os docentes indígenas terão aulas divididas em cinco módulos: pedagogia (currículo das escolas Yanomami), aritmética (operações, pesos e medidas, calendário), geografia (biomas brasileiros), história (ocupação da Amazônia) e ciências naturais (energia e meio ambiente).

Os professores indígenas Kaxinawá Ixã e Isa, da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), participam como consultores no módulo de pedagogia.

Para o módulo de ciências naturais, está prevista uma visita dos professores yanomami à hidrelétrica de Balbina, situada no município de Presidente Figueiredo (AM), a cerca de 700 quilômetros de Boa Vista.

Os primeiros dez dias do curso foram acompanhados pelos líderes yanomami de cada uma das regiões representadas. O objetivo deste acompanhamento é estreitar as relações entre a nova geração de professores indígenas e suas lideranças tradicionais, de modo a permitir que os primeiros contextualizem a sua formação no quadro político e cultural mais amplo definido pela geração anterior, e, para os segundos, conhecer mais perto o processo e conteúdo da formação dos mais jovens.

O quarto curso de formação de professores para o magistério conta com o apoio financeiro da Fundação Rainforest da Noruega (RFN/OD), da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação (MEC) e da Secretaria de Educação, Cultura e Desportos do Estado de Roraima.


Começa nova fase de projeto de reflorestamento em
Homoxi (RR)
  

Com a participação das mulheres, jovens e crianças yanomami, a equipe do Programa Ambiental da Comissão Pró-Yanomami (CCPY) realizou, em julho último, o plantio de 300 das 2 mil mudas de árvores frutíferas – buriti, açaí, patauá, ingá, caju e manga – previstas para a região do Homoxi, no alto rio Mucajaí, uma das áreas mais degradadas pela ação dos garimpeiros entre 1988 e 1998. As mudas foram preparadas em 2003 com a plena participação dos Yanomami. Trata-se de mais um passo rumo à recuperação ambiental das áreas de garimpo na Terra Indígena Yanomami, no contexto do projeto de reflorestamento desenvolvido pela CCPY com o apoio da Fundação The Nature Conservancy (TNC).

Além de frutíferas, foram plantadas mudas de várias espécies nativas e exóticas que venham reforçar a dieta dos Yanomami, bem como outras variedades destinadas a atrair a caça, afugentada desde a época do garimpo, e plantas utilitárias como a palmeira ubim (yaa hanaki), usada na construção de suas casas coletivas tradicionais, o yano ou xapono.

O projeto é conduzido pelo coordenador do Programa Ambiental da CCPY, Ednelson (Macuxi).

Souza Pereira, e pela assessora Renata Maria Guerreira Fontoura (Projeto Homoxi).

O Programa Ambiental da CCPY conta também com o auxílio do assessor do Programa Demonstrativo dos Povos Indígenas (PDPI), José Clodoaldo de Oliveira, que iniciou a procura e identificação de abelhas na floresta no contexto do Projeto de Apicultura Yanomami também desenvolvido na área. O objetivo do projeto é, durante os próximos anos, capacitar jovens yanomami para a criação de abelhas e coleta de mel. A experiência começou em 2002 paralelamente ao projeto de reflorestamento de Homoxi. Ainda com o apoio da TNC, foi também construído, em 2003, em Homoxi, um centro de treinamento, uma escola, um alojamento e um viveiro de mudas para os Yanomami.

Em 2004, deverão ser oferecidas oficinas de apicultura aos jovens yanomami de Demini e Toototobi (AM). Essa atividade, com a colaboração desses jovens no Projeto Homoxi, culminará com a instalação de colméias nas áreas de reflorestamento desta última região. Essa etapa deverá ser concluída com a visita dos geógrafos François-Michel LeTourneau (CNRS-IRD-Universidade de Brasília) e Maurice Nielsen (CCPY) que, juntamente com os Yanomami e o antropólogo Bruce Albert (IRD - Conselho Diretor da CCPY), devem elaborar uma cartografia das áreas reflorestadas (2002-2004).


Boletim Pró-Yanomami Nº 53 - Fechamento: 02/09/2004
Coordenação Editorial: Alcida Rita Ramos, Bruce Albert, Jô Cardoso de Oliveira
Redação: Rosane A. Garcia
Distribuição e Secretaria: Andréia Laraia Ciarlini

Errata. No Boletim Yanomami 51 referimo-nos erroneamente ao Convênio FUB-Funasa 14/2000. O convênio que regula as ações de saúde na Terra Indígena Yanomami é de número 1326/04 (Diário Oficial da União, 09/07/04).



 

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